sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Um raro dia vermelho.

Era apenas mais um dia cinzento de um Outubro qualquer, como de costume havia me levantado antes da aurora, pois dormir me parecia monótono e me causava a estranha impressão de perca. Você pode estar se perguntando como eu posso achar que dormir fosse entediante, mas quando não se sonha (não é não se lembrar dos sonhos, é simplesmente não sonhar), o ato de dormir passa a ser apenas uma longa espera. Por isso não gostava de demorar-me na cama, dormia apenas o necessário ou menos que isso algumas vezes.

Então como já dito me levantei antes mesmo do sol raiar e fiz todos os movimentos rotineiros da vida, levantar, tomar banho, escovar os dentes e tomar uma xícara de café. Enquanto sorvia em grandes goles aquele café nem fraco nem forte, nem quente nem frio, postei-me na janela para poder observar (ou ao menos tentar) os cintilantes diamantes sobre o firmamento. Por um leve momento fiquei maravilhado com seu brilho e imaginei como seria andar por entre elas (devo estar caducando), mas logo me enjoei delas também.

Então para tentar aliviar-me um pouco deste maldito tédio que consome diariamente as minhas entranhas, resolvi me dedicar um pouco à literatura. Mas não como um espectador qualquer e sim como um escritor ativo. Sentei-me em uma cadeira de madeira simples com apenas uma caneta tinteiro e uma folha em branco a minha frente, observei (observar? Não, acho que contemplar seria melhor) aquela folha alva e forcei meu (fraco) intelecto a dar-me não somente as idéias, mas também as palavras para tornar meus pensamentos (se é que algum dia cheguei a ter um) concretos e tangíveis. Porém meus planos de dar alguma contribuição ao mundo através das palavras foram frustrados, estava há horas sentado naquela cadeira contemplando aquela folha e nenhuma palavra sequer viera a minha mente e o aparentemente à medida que o tempo passava a folha parecia se tornar mais branca (e minha mente também) e o tédio iam aumentando quase que em uma proporção geométrica.

E é nessas horas onde a mente está vazia e nenhum desejo se manifesta, é nessas horas em que a insanidade e a ira dançam desvairadamente nos amplos salões do pensamento. E em uma dessas valsas, pegando a xícara vazia que havia deixado sobre a mesa arremessei o pobre aparato de porcelana contra a parede espatifando-o em mil pedaços. Levantei-me irado, peguei o casaco e sai. Parei em frente ao cadeado do portão, coloquei a mão dentro do casaco e tateei em busca das chaves, porém encontrei antes delas um cigarro (não que costume fumar, mas sempre carrego um para relaxar em algum momento) coloquei-o na boca e com a mão já no outro bolso peguei o isqueiro e eventualmente as chaves. Acendi aquele pequeno tubo de papel e olhei para cima dando assim a primeira tragada. E antes mesmo de expelir a fumaça, a cor cinza daquele céu desgostoso fez com que até mesmo a ira e a frustração dentro de mim tornassem-se monótonas. Abri o cadeado e sai. Alguns passos depois o cigarro acabou, porém me mantive caminhando.

Enquanto andava notei que a fumaça do cigarro mesmo depois deste se acabar, havia se tornado quase uma neblina sobre meus olhos, deixando ainda mais cinza o dia. As pessoas que passavam na rua pareciam não ter rosto e os barulhos da cidade pareciam cochichos. (Tudo tão monótono...)

Já estava distante de casa quando pequenas gotas de água vindas da abóboda celeste atingiram meu rosto. Esse simples acontecimento me fez despertar do tédio e notar que havia começado a chover, era bom que voltasse logo para casa. Pus-me a refazer o caminho, porém a chuva fora mais rápida e me pegou no meio do caminho, mas foi incapaz de me parar. Continuei a andar, e quando faltavam poucos metros para chegar a minha casa, escorreguei no asfalto molhado e bati com a cabeça na calçada (DOR!). Cai estático no chão e ali permaneci imóvel olhando para o horizonte enquanto de minha cabeça jorrava o precioso liquido que me mantinha vivo e misturava-se a água da chuva. Aquele caldo rubro e quente, de gosto ferroso que deveria estar sempre dentro de mim agora escorria junto à água da chuva em direção ao esgoto para que os ratos se banhassem e eu estava ali estático, impedido de fazer qualquer coisa apenas esperando a morte (DESESPERO!). Mas enquanto minha vida se esvaia de meu corpo sendo levada para o esgoto, eu contemplava (ah, folha branca) o céu cinzento daquele dia de Outubro (como todos os outros dias) relembrou-me o vazio que sentira dês de as primeiras horas do dia (ou seriam da vida?). E enquanto aguardava que o monótono ciclo da vida se cumprisse uma pequena gota de sangue caíra em meu olho tingindo tudo de um vermelho maravilhoso, vermelho como o fogo, vermelho como as rosas na floricultura do outro lado da rua, vermelho como o sangue que escorria em direção as profundezas da cidade. E então faleci com um sorriso nos lábios e uma esperança de que quando velassem meu torpe cadáver mal-cheiroso não fechassem meus olhos para que eu pudesse eternamente contemplar aquele maravilhoso mundo vermelho. (ESPERANÇA?) 

3 comentários:

  1. Idiota,vc já deveria ter me dito há tempos que escrevia.
    u-u

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  2. Muito bom, cara, estou impressionado. =o E eu lá me achando com aquele blogzinho. xDDD Agora vi que não sei escrever. :~

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